O caminho de comunicação predileto dos moralistas. O eufemismo sempre foi uma figura de linguagem essencial às relações entre indivíduos; sempre. Ainda mais hoje, nestes tempos largamente hipócritas, em que a palavra dita tem quase valor monetário. Aquele jornalista viad... digo, homossexual, José Simão, separa bem os tipos que usam o eufemismo nos colóquios e os que não. Os polidos, que engatam sempre um eufemismo nos diálogos, são os que falam o tucanês. No entanto, aqueles que usam a linguagem chula do populacho, são os que falam lulês. Lulês e tucanês: acho que vocês sacaram. Eu, definitivamente, sou lulês, com altas doses de hiperbolismo vazando da língua.
Por exemplo, um falante do tucanês diria com a voz mansa: Com licença, preciso ir ao banheiro evacuar! Eu já assim digo para meus amigos: Sai da frente, que eu vou soltar enormes toletes de bosta pelo meu cu! Diz-se a mesma coisa, mas com um texto diferente.
Como bem se observou, não faço uso do eufemismo para me comunicar. Somente em ocasiões devidas. Eis uma grande burrada de minha parte, pois ainda acabarei tomando na cabeça por isso. Cedo ou tarde. Como saber se um termo ofende ou não? Soube que a palavra aidético é extremamente ofensiva ao portadores de HIV. Ainda bem que soube. Eu poderia ser processado por fazer uso do termo, hã?!
Quantas feridas purulentas no seu braço. Você deve ser aidético.
Aidético é o seu pai. Eu sou soro-positivo!
Ah sim. Desculpe, xerife.
E os gays do sexo masculino? Bicha e viado são expressões oprobriosas há muitos anos. Pode-se dizer “membro do movimento LGBT”, mas chamá-los de pederastas e queima-roscas é chulismo dos bravos segundo os renomados manuais de redação.
Deficientes? A cada ano que entra o campo lexical entre os deficientes se renova por completo. Agora você deve chamar um doente mental de “deficiente intelectual”. Louquinho, retardado, doido, biruta, lunático, maluco, alienado, pinel e outros vão para a coleta seletiva. Em “O alienista”, de Machado de Assis, chamavam os deficientes intelectuais de “doudos”, loucos, lunáticos e alienados: termos apropriados ao século dezenove. Hoje, é mais ameno xingar a mãe do que se referir a um deficiente intelectual com tais termos.
Dia desses eu estava assistindo ao Pica-Pau. O episódio do rachador, saca?! Pois bem, lá pelas tantas o pássaro inferniza tanto a vida de um guarda de trânsito que o policial termina por ser internado numa “clinica psiquiátrica” (não ouso dizer manicômio – é ofensivo!). No desenho, tiveram o cuidado de colocar o suave termo “depósito de birutas”, ao invés de clínica psiquiátrica (o termo do momento). O desenho foi dublado nos anos 70, possivelmente. Mas como a moral muda conforme mudam-se as gerações, talvez “depósito de birutas” fosse o eufemismo ou o termo mais adequado às crianças da época. Talvez o tradutor tenha pensado: “Usar o termo manicômio ou hospício é muito pesado para crianças. Usarei 'depósito de birutas', é mais jocoso, mais apropriado à proposta do desenho”.
Era o eufemismo da época. Época em que se podia brincar com arminhas de chumbinho e espoleta, caçar de verdade... Época que os desenhos infantis não eram chamados de imorais... Época em que o corpo pueril não era erotizado, enfim, tempos já bem ultrapassados que não voltam mais. As coisas mudam, gafanhoto.
Vão-se os termos, fica a moral.
Nota: Esta charge eu escaneei da revista Mad Nº5, de 1974, da coleção de meu pai. Anos setenta, os anos em que citei no texto. Esta charge continua atual ou precisa ser refeita?




